Seu Antônio

No Brasil, o crescente número de pessoas em situação de rua é um dos maiores indícios da situação de precariedade em que se encontra a esfera pública. Com o país mergulhado em uma crise econômica, o alto nível de desemprego e a má remuneração de várias categorias foram algumas das consequências que agravaram essa situação.

Na cidade de São Paulo, o maior centro urbano do país, esse triste cenário está presente no dia a dia e por todos os lados. Em 2013, iniciei este ensaio retratando pessoas que se encontravam em situação de rua, buscando atribuir-lhes a mesma linguagem visual (mais pretensiosa e elaborada) empregada geralmente em campa- nhas publicitárias, de moda ou até políticas. Assim, optei por utilizar um mesmo recurso para todos os retratos. Uma luz de flash à bateria com um acessório chamado de “panela de beleza” (beauty dish), muito utilizado para fotografar grandes celebridades ou pessoas de grande relevância política ou social.

Esses encontros me foram tão marcantes que decidi passar a gravar as conversas, e foi então que encontrei Seu Antônio. Muito generoso e simpático, compartilhou um pouco de suas experiências – são 12 anos vivendo nas ruas, sendo dez deles em uma cadeira de rodas. A história do Seu Antônio é uma entre milhões mundo afora e cada um desses retratos possui grandes narrativas.

A singularidade de cada um dentro desse grupo heterogêneo que passa por complicações dos mais distintos motivos costuma ser vista de maneira homogênea, como um mesmo grupo. Um impasse do presente ao se pensar o sentido de realidade social, e como objeção a esse impasse vem a provocação de replicar essa história. Da mesma forma com que opera o senso comum, todos esses rostos se tornam Seu Antônio. Acontece que aqui eles têm um passado não revelado e uma linguagem visual digna de suas experiências.

Em nosso reduto de interesses individuais, no qual as narrativas dominantes estão esvaziadas, esses rostos são um desafio para se pensar quais histórias merecem relevância, visando o atual debate público. Por trás de cada imagem, muitos conflitos. Nesse sentido, deixar que histórias floresçam em nosso imaginário através de cada rosto, de cada retrato, é inevitável.