Geometria da Matéria

Geometria da Matéria é um ensaio iniciado em 2009 no qual se percorre por duas cidades emblemáticas com peculiaridades em comum: São Paulo e Nova York. Compostas por uma ampla miscigenação arquitetônica, essas paisagens anacrônicas formam uma intersecção acentuada pela distância física e temporal. Ambas são paisagens compostas por uma multiplicidade ideológica que contempla conflitos históricos, expansão socioeconômica, disputa política e especulação imobiliária, o que as mantém transitórias, efêmeras e em fluxo constante. Suas estruturas sólidas são constituídas por uma rigidez fugaz. A contraposição entre essas edificações monumentais, blindadas e impositivas, e o conceito de coletividade e compartilhamento das relações sociais é inevitável.

A metáfora da representação permite expandir o campo do documento histórico, articulando o estudo das poéticas visuais, o que repercute em uma infinidade de possibilidades de apreciação do objeto, muitas vezes mais onírica que representativa. Ao desarticular as linhas retas, criam-se perspectivas insólitas e algumas vezes até desconfortantes, nas quais ressignificações fluem invariavelmente, subvertendo o olhar a esses fragmentos poéticos.

Como uma sinfonia sufocante, estes monumentos tão díspares traçam um movimento ruidoso, contrapondo construção e ruína; recortes das metrópoles verticalizadas na ausência de sua poluição visual tão característica, sem publicidade, sem pessoas; estímulos visuais compostos predominantemente de matéria. A infinidade de linhas e formas que se apresentam revela uma abundância de possibilidades nas quais luz e sombra ditam ressig- nificações e sentidos.

Caminhar, olhar e perceber a cidade trazem a possibilidade de escapar da inércia compulsória da rotina cotidiana. No processo de criação dessas paisagens, ora rígidas, opressivas e maçantes, ora sutis e harmonizando formas minimalistas aos vestígios naturais remanescentes, está o exercício do olhar que comumente se esmaece no cotidiano. Aqui, no entanto, elas incorporam o mesmo enredo e suas estruturas coexistem paradoxalmente. Complementam-se esteticamente e contrapõem-se simbolicamente.