Devoção

De minha inquietação quanto às concepções intransigentes das tradições religiosas ocidentais, que vem desde a infância, nasce o desejo de buscar conhecer outras proposições de fé, espiritualidade e, por conseguinte, de viver a vida.

A fotografia é um meio que possibilita um aprendizado muito interessante. Ela nos permite conhecer diferentes conceitos, pesso- as e lugares. Retratar pessoas e, portanto, conhecê-las e aprender com elas são experiências de intercâmbio que vão muito além do ato de fotografar. A aproximação e a troca, inerentes ao aprendiza- do, nos induzem a questionar tudo aquilo que pressupomos como conhecido.

Berços de algumas das culturas mais antigas de que se tem conhecimento, as cidades de Varanasi (Benares), na Índia, e de Katmandu, no Nepal, foram protagonistas deste projeto. Dessa atmosfera mística, repleta de gratidão e reverência, emana uma diversidade enorme de crenças e manifestações.

Seja pelo budismo, seja pelo hinduísmo ou por qualquer outra vertente religiosa, a ideia de carma, reencarnação e iluminação estabelece a multiplicidade de práticas devocionais que promovem a não violência, a ação benevolente e a erradicação do sofrimento; fragmentação e restauro do corpo e da alma na busca pelo aprimo- ramento da percepção espiritual.

Retrato é encontro; é interação por meio da qual se estabelecem relações. Desses encontros surgiram as imagens aqui apresentadas. Em cada uma delas há muito mais do que é possível se constatar num primeiro momento, tanto no que se refere ao retratado quanto ao que retrata. Histórias, valores culturais, longas jornadas de experimentações, personalidades, abstinência e fé são vestígios que se apresentam através de olhares, expressões marcadas, ornamentos, paisagens, instantes de atenção, formas, cores e texturas. A paisa- gem onírica cria um diálogo de valores contrastantes entre sagrado e profano, fé e prática, realidade e ficção…